blog do Preto


Olivia na Daslu

Chegando perto da megaloja, pela rua Funchal, nota-se alguns barracos à direita, numa estreita viela (r. Coliseu). Talvez resquício de uma favela que resistiu ao tempo e à especulação imobiliária da região, altamente valorizada agora.

Chega-se à rua Gomes de Carvalho acessando a rua Beira-rio e é na Gomes de Carvalho que esta uma portaria da Daslu, para carga e descarga. Por essa portaria, provavelmente passam mensalmente milhões de reais em mercadorias nacionais e importadas. É por lá também que saem algumas mercadorias, como veremos a seguir.

Cheguei em meu Uno Mille na portaria, no horário combinado e aguardei a liberação. Logo fui informado que deveria descarregar o veículo e retirá-lo de lá. Um funcionário da Livraria Cultura nos levou até o local do evento. Descemos do elevador e caminhando por um corredor de serviço, passamos por uma porta de espelho e chegamos na loja. Há um café dentro da livraria. Com a ajuda de um funcionário montamos o equipamento. Havia uma mesa neste café ocupada por quatro homens. Um mais velho, três mais jovens. Um quinto sujeito, de terno azul, chegou e todos se levantaram, deixando a mesa vazia. Fiz o caminho de volta para o elevador. Deveria tirar o carro dali. Os cinco homens desceram comigo. O mais velho dizia ao celular: “não...amanhã você não me encontra na delegacia, vamos marcar na hora do almoço, no Congonhas...” Então notei que todos, menos o que vestia terno, carregavam sacolas com a logo marca da loja. No elevador apertado, espiei rapidamente algumas delas e vi que estavam com caixas pequenas dentro. O que teriam nessas caixas? Por que eles saíram dali pela porta dos fundos? Policiais, investigadores? Quem poderia afirmar? Certamente, só o homem de terno azul, que os acompanhou até a portaria e se despediu desejando-lhes feliz natal. Então lançou-me um olhar estranho quando passei de carro, rumo à marginal Pinheiros. Causei-lhe algum incômodo. Pelo retrovisor, vi-o sumir por uma entrada e entrei na marginal.

Deixei o carro numa rua próxima a Daslu e voltei para a portaria de serviço. Parece que agora a Daslu tem ou terá um acesso principal para pedestres. Depois fiquei sabendo também que os preços do estacionamento não são de 40 reais para a primeira hora, como li num blog, são iguais a qualquer estacionamento, 8 reais a primeira hora, dois ou três por hora extras. Faltavam 45 minutos para começar o evento, eu e Oliva resolvemos passear pela Daslu. Pois até então, estávamos dentro da livraria e nada nos dizia de novo, era apenas uma Livraria Cultura como outras tantas, com boa variedade de títulos e bom atendimento.

Andando por um corredor acarpetado deixamos os livros sem notar que já estávamos diante de uma grife de roupas. E logo em seguida outra, e mais outra. Não há separação como num shopping tradicional. Isso nos chamou a atenção. As lojas são coladas, umas nas outras. E em qualquer cantinho, tem alguma coisa sendo vendida, muitas vezes sem qualquer divisão física. Parece um passeio por um palácio. Ou a casa de algum milionário. Você vê sapatos, gravatas, canetas, jóias, vestidos, bolsas, tudo espalhado, organizadamente. Se alguém dissesse que você esta num andar da mansão do Abílio Diniz ou quem sabe, da Hebe Camargo é possível acreditar. E o passeio continuou. E mais lojas surgiram de muitas outras grifes além de Prada, Dior, Gucci, Calvin Klein, Dolce&Gabbana, e lojas e marcas que eu nunca ouvi falar. Foi neste momento que me orgulhei de alguma ignorância minha.

De repente, vejo pendurado no teto de um ambiente, um helicóptero. Olivia riu e fez uma foto com o celular. A decoração passeia entre o sofisticado e o profundo mau gosto. Colunas gregas entre adornos modernos, e algumas doses de tecnologia. É uma miscelânea comum de uma loja qualquer, apenas alguns milhões mais cara. Uma enormidade de produtos diversos, de boa qualidade e bom acabamento, entre quinquilharias caras e inúteis. Seria a galeria Pagé dos bacanas? Certamente ali encontramos muita coisa com um preço exorbitante, sem qualquer justificativa para valer o que é cobrado. E de origem fiscal duvidosa. Razão pela qual dizem que a dívida da loja com a Receita, já ultrapassa 100 milhões de reais. Eis que olho uma bancada com camisetas em oferta por 38 reais, e num raro momento C&A, sinto-me no meu país de novo.
Mas me enchi do passeio e das vendedoras. Todas muito elegantes, com cara de milionárias saídas de uma festa em Hollywood. Um ar blasè predomina e muitas ostentam um semblante tão entendiado que me perguntei por que tanta pose se estão trabalhando como milhões de vendedores espalhados pelo Brasil? Mais parecem clientes desinteressadas flanando por coisas caríssimas sem utilidade alguma. Um enfado só

Um rapaz pede a uma menina que localize jaquetas poderosas seja lá o que for. Ela promete a ele, talvez um gerente, que fará isso com rapidez pois há um movimento sutil naquele lugar. Deve ser algum cliente abastado, e abestado, exalando dinheiro pelos poros, dada a discreta agitação das vendedoras. Passamos por uma loja de discos com piso de vidro. Debaixo dele, uma coleção de carrinhos de brinquedo. Parei por achar interessante, talvez ninguém dê bola para aquilo. Voltamos à livraria, e acredito que não chegamos a conhecer nem dez por cento da loja.

Começou a apresentação. O café estava com pouco mais de uma dúzia de clientes. Olivia cantou acompanhando-se ao violão. Recebeu aplausos e emendou outra música do CD Só a Música Faz. Depois passou para o teclado e continuo cantando. Foi a primeira vez que ocorreu um evento musical naquela parte da loja. Acabado o pocket show, Olivia recebeu elogios. Lembrei daqueles versos da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant: “todo artista tem de ir aonde o povo está” E os ricos...sim, também fazem parte do povo.




Escrito por Preto às 17h36
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